A “RECICLABILIDADE TECNOLÓGICA” E O INTERESSE ECONÔMICO

O termo “reciclabilidade” é um neologismo que tem tido diferentes definições, dentre elas “a qualidade de um material ser reciclável”. É importante lembrar que o termo “reciclável” se refere aos materiais “passíveis” de serem reciclados, porém nem sempre o são.

Dos materiais mais comuns na fabricação de produtos na atualidade pode-se dizer que, grosso modo, quase todos são “recicláveis”, mas não necessariamente “reciclados”. Os motivos de não serem reciclados são vários e relativamente bem conhecidos.

Para que produtos ou materiais sejam “reaproveitados” após o seu descarte, e a reciclagem é uma das alternativas, deverá existir pelo menos as seguintes condições simultâneas: tecnologia disponível e economicamente viável, mercado para o produto ou material reaproveitado, logística reversa organizada e rentabilidade em todas as etapas reversas (coleta e transporte, processamento, redistribuição e reintegração ao ciclo de negócios). A falta de uma destas condições dificulta e, na maior parte das vezes, impede o reaproveitamento em escala aceitável.

Como extensão da ideia de “reciclabilidade”, Leite (2009, pag.154 e 2017, pag.241) cunhou em o termo “reciclabilidade tecnológica” definindo-o como a aptidão de um produto de se adaptar às diversas fases da cadeia reversa de pós-consumo.

· Facilidade de ser transportado

· Facilidade de desmontagem do produto durável

· Aptidão ao processo de remanufatura

· Facilidade de separação dos produtos coletados

· Facilidade de extração dos materiais constituintes

· Aptidão dos materiais constituintes no sentido de:

o Conservar as propriedades originais após reciclagem

o Permitir repetidas reciclagens

o Permitir porcentual de substituição de matérias primas novas

Sem entrar em detalhes técnicos e concentrando-se na “aptidão dos materiais constituintes” pode-se classificar qualitativamente os materiais como de alto nível, médio e baixa relativamente a esta aptidão. Quanto mais alto o nível deste tópico maior interesse econômico desse material como resíduo sólido.

Reconhecidamente os metais e suas ligas, o vidro e o papel são exemplos de materiais com alto nível de aptidão ao reaproveitamento, o que lhes confere interesse econômico, independentemente de qualquer aspecto de sustentabilidade ambiental.

Empresas utilizadoras de resíduos constituídos por materiais de alta “reciclabilidade tecnológica” são ativas em sua captura, incentivando através de preços de compra de sucata que permitem rentabilidade em todas as etapas das cadeias reversas, gerando cadeias reversas com quantidades relevantes. Exemplificando: produtos como lata de alumínio, eletrodomésticos da linha branca, garrafas de vidro, bateria de chumbo etc. revelam grande procura pelas empresas utilizadoras de seus resíduos, visto que sua reutilização confere uma economia significativa na substituição de matérias-primas virgens.

Por outro lado, resíduos de produtos constituídos por matérias-primas com baixa aptidão nessa visão tem maior dificuldade em organizar a logística reversa, normalmente por falta de rentabilidade em todas as etapas, não havendo interesse direto de empresas em seu reaproveitamento. São exemplos de materiais com baixa “reciclabilidade tecnológica” os plásticos comuns, as embalagens multicamadas, pilhas e baterias, eletrônicos, produtos de informática etc. Na maior parte dos casos o resultado é de baixo nível de reaproveitamento destes resíduos, que vão para o meio ambiente gerando poluição contaminante ou por excesso.

Portanto, quando não existem estas condições de alta “reciclabilidade tecnológica” a solução é a aplicação de legislação específica, responsabilizando todos os participantes destas cadeias industriais, fabricantes e comerciantes, a se responsabilizarem pelos produtos que colocam no mercado, tipicamente o objetivo da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

Ressalto, sem nenhuma crítica, apenas para ficar claro, que no caso dos resíduos com alta “reciclabilidade tecnológica” não há necessidade de legislação, pois o interesse econômico se sobrepõe aos demais, sem que haja necessariamente interesses em preservação do meio ambiente.

Referência bibliográfica

Leite, Paulo Roberto – “Logística Reversa - Meio Ambiente e Competitividade”, São Paulo, editora Pearson Education, 2009

Leite, Paulo Roberto – “Logística Reversa – Sustentabilidade e Competitividade”, São Paulo, editora Saraiva, 2017.